Guy Annequin
Rio de
Janeiro, 2003.
Grandes rios e grandes
civilizações
Os grandes rios
engendraram as grandes civilizações: o Nilo, egípcio; o Tigre e Eufrates,
sumerianos; o rio Amarelo, chinês; o Indo, indiano. Contudo, neste vasto
subcontinente indiano sete vezes maior do que a França e hoje dez vezes mais
povoado, dois rios são responsáveis por esta civilização; se esta eclodiu
efetivamente na bacia do Indo, em compensação, será na do Ganges,
principalmente no decurso dos séculos seguintes, que se sucederão uma série de
dinastias que farão questão de estabelecer aí suas capitais.
Além disso, na mitologia
indiana, o Ganges é chamado de Santa Mãe e é considerado como a réplica, aqui
na terra, da Via Láctea; todo o crente aspira ir um dia em peregrinação,
mergulhar seu corpo no rio sagrado, e talvez obter o insigne favor de morrer às
suas margens, de aí ser incinerado e ter as cinzas misturadas às suas águas.
Ainda hoje, com as suas escadas (ghats), mergulhando no rio, Benares é a cidade
santa onde os peregrinos vão aos milhões purificar-se e procurar a esperança de
uma vida melhor para sua próxima reencarnação. Assinalemos, no entanto, que
esta água purificadora está terrivelmente poluída. Bernard Shaw, humoristicamente
cáustico, dizia que os próprios micróbios não podiam viver ali!
Estes rios traziam a esperança, mas também a vida e a morte. Na fornalha
indiana fustigada pela excessiva monção, não há vida sem água, sem rega; os
rios e os riachos arrastam esta água preciosa. Criadores de vida, os rios podem
igualmente tomá-la de súbito, pois seu humor é estranhamente caprichoso e
vagabundo: em algumas horas, acontece encherem-se e arrastarem tudo; de se
deslocarem também e de se fixarem a quilômetros do leito original anterior!
A água comanda tudo, sobretudo a implantação da aldeia ou da cidade,
quando se pode estar seguro de a reter em bacias suficientes. Uma fonte é um
tesouro, não é, pois, de admirar que as mais antigas divindades fossem as
Nagas, estes gênios-serpentes de várias cabeças, apostados perto das fontes e
bacias para as proteger. Ainda hoje os camponeses os veneram.
A vida só é possível pela água, com o Indo abrasado no seu vapor, sob um
sol implacável e uma atmosfera demasiado poeirenta, secas e fome espreitam o
camponês e ainda febres e doenças temíveis; as epidemias matavam às centenas de
milhares. A média de vida dos Indianos era e é ainda dramaticamente baixa; uma
criança que nascia tinha poucas possibilidades de chegar à velhice. Por outro
lado, o seu nascimento acorrentava-a definitivamente à sua condição social,
medíocre para a quase totalidade dos seres, mantendo-a aí em virtude da
disciplina férrea imposta pelo sistema das castas. Era preciso portanto
resignar-se a esta amarga constatação: que a vida só é sofrimento, que o
universo inteiro só encerra sofrimento. Assim sendo, como não poderia ela ficar
obcecada por visões paradisíacas, supraterrestres, feitas de palácios suntuosos
e de parques verdejantes onde vivem deuses e heróis de plástico ideal, que nem
a fome nem a doença atormentam e que escaparam ao seu karma se libertaram da
constrangedora cadeia? Com efeito, a arte indiana só mostra seres perfeitos,
bem nutridos, de formas volumosas, sem taras nem imperfeições, parecendo ignorar a angústia,
a fome, a dor, o desgosto. Por isso, eles já estão próximos dos deuses; a
perfeição das formas humanas participa igualmente do divino. Este universo
intemporal e ideal da arte, povoado de seres sobrenaturais, joviais e de
plástica agradável, tem paradoxalmente aos olhos dos Indianos mais existência
do que os seus semelhantes imediatos e contemporâneos, tão imperfeitos e
efêmeros; os acontecimentos terrenos e os indivíduos têm pouca realidade e
significação, uma vez que estão condenados a desaparecer. Os conceitos
abstratos e gerais, em contrapartida, pelo fato da sua perenidade e de sua
inalterabilidade, são os únicos reais e válidos, assim como só as leis e os
costumes de instituição divina têm um caráter absoluto e indiscutível. Daí o
aspecto profundamente espiritualista do pensamento indiano.
Além disso, esta concepção que rebaixa a vida humana à condição de
simples elo de uma cadeia ininterrupta de reencarnações, conduz à aceitação de
tudo e, ainda, à paralisia da vontade, pois que para a eternidade, o tempo e a
evolução não têm sentido. Por outro lado, as vidas anteriores decidiram tudo e
a existência atual, momentânea, esta curta e penosa aventura, é só o fruto dos
méritos anteriores. Daí a indiferença dos hindus pelas realidades contingentes
e sua atração pelo ideal e a alta espiritual idade, como o testemunha toda a sua arte que não se
preocupou nunca em exprimir as sensações passageiras; sua nobreza e dignidade
derivam desta atitude eminentemente espiritual e religiosa, profundamente
firmada na alma indiana. Daí, igualmente esta continuidade exemplar, esta
homogeneidade e coerência excepcionais, que observamos na evolução da arte e
que lhe asseguraram sua perenidade mesmo depois que contatos brutais com
culturas estrangeiras tivessem alterado e abalado, por várias vezes, o caráter
monolítico da indianidade sempre "una" na sua diversidade.
Pelo grande desfiladeiro de Khyber, ao longo de milênios, se expandirão
os Árias, os Gregos de Alexandre, os Citas, os Hunos, os Turcos; depois pelo
mar virão os Europeus. Em nenhum momento, apesar das inevitáveis perturbações e
desvios, a indianidade foi desenraizada deste subcontinente fechado sobre si
mesmo, entre mares e o Himalaia. Tanto por fatores religiosos como pela
constante fidelidade às tradições milenares, esta continuidade foi igualmente
favorecida pelos dados geográficos.
Fechada sobre si mesma, sem dúvida! A Índia terá um esplendor universal
sem equivalente em sua época, que se prolonga até hoje. Por toda a Ásia até à
China e ao Japão, a Índia, sem o desejar, representou um poderoso papel
civilizador, sem ter tido nunca o mínimo interesse imperialista, o que merece ser dito. Este fervilhante,
mas sereno centro de cultura, marcou todo o Extremo Oriente com a sua visão e
pensamento; o budismo, nascido na Índia, depois de sete séculos, sai do próprio
solo, floresce ainda em muitos países da Ásia, que modelou profundamente. O
Sudeste da Ásia traz no mais alto grau a marca da civilização indiana e uma
cultura tão perfeita como a dos Khmers, que procede dela quase totalmente.
Esta Índia que imaginamos como um bloco monolítico pela sua notável
homogeneidade de cultura, não conhece, de resto, a unidade política senão de
maneira breve e descontínua, por três vezes somente: com a dinastia Mauria,
pouco antes da nossa era; com a dos Guptas, nos séculos IV e V, e com os
Mongóis, estes de origem não indiana e ainda por cima muçulmanos, desde o
século XVI ao XVIII. Por três vezes somente - cinco ou seis séculos no máximo,
dos vinte últimos - a união política foi realizada. Nos intervalos, pequenos
reis e príncipes erguiam efêmeras capitais, mas também templos assombrosos. No
conjunto, foi regra geral a fragmentação política e não a unidade.
Isso, naturalmente, condicionou e explica a diversidade aparente do
estilo indiano, que
subsiste como expressão de províncias muito diversas, separadas por milhares de
quilômetros. Não esqueçamos nunca que a Índia é um subcontinente imenso, de
climas diversos e paisagens que vão do deserto aos vales glaciares, com
populações de várias raças, falando línguas diferentes de maneira que hoje
é-lhes necessário o inglês para se compreenderem entre si e que o cimento que
ligou todos os Indianos foi sempre o bramanismo, sendo o budismo e jainismo
dois dos seus rebentos. O dia em que uma religião, o islamismo, conseguiu
desviar das suas raízes uma parte da população, a Índia explodiu: em 1947, o
Paquistão muçulmano desmembrou-se; depois de 1970, o Bangladesh, província
oriental do Paquistão, separou-se por sua vez deste último.
Seguiremos a civilização indiana de há quarenta séculos a esta parte,
porque podemos considerar, que desde a primeira fase proto-histórica, os germes
iniciais da indianidade são reconhecíveis. Dividiremos, grosseiramente, em três
grandes painéis o longo e muito complexo desenrolar desta civilização, que se
confunde com a do seu pensamento totalmente impregnado de religiosidade e de
espiritualidade, uma vez que mistura o divino e o humano.
Aparecida por volta de 2500 a.C., forja, durante um milênio, misteriosamente, sua
própria visão e
concepções.
Depois, durante dois milênios caóticos, origina uma série de culturas
diferentes atingindo seu ponto culminante nos séculos IV e V, durante o período
gupta. Enfim, durante o último milênio, seguiremos sua decadência entrecortada
por alguns belos períodos.
N.B: É preciso entender por Indiano o habitante da Índia e, por hindu, o
adepto da religião hinduísta, que é uma forma evoluída do antigo bramanismo.
Nem todos os Indianos são forçosamente hindus.
A Índia Proto-Histórica
A Índia era
povoada desde a noite dos tempos, quando, há 5.000 anos, alguns clãs chegaram a fixar-se à
volta de seus campos, perto de seus rebanhos, em grandes aldeias com atividades
cada vez mais organizadas. Com a ajuda de argila, fazem recipientes; observam
as qualidades de um minério vermelho: o cobre, que, primeiro martelado, depois
fundido, oferecia um grande avanço em relação à pedra para o fabrico de
ferramentas. Essas primeiras aldeias primitivas, como as de Kulli e de Mehi,
foram reconhecidas principalmente na província do Baluquistão, que se limita
com o Irã. No entanto, cada uma destas comunidades mostra uma certa
originalidade e distingue-se da vizinha: uns enterravam seus mortos, outros
queimavam-nos; o tijolo prevalece neste lugarejo e no outro, a pedra. Em suma,
dispersos e selvagens, cada agrupamento contribuía na elaboração de uma nova
cultura em gestação.
A região de Amri, em Sind, parece ter sido relativamente mais favorecida,
porque estava situada numa zona então fértil e irrigada, nitidamente, mais do
que hoje, como o demonstra a fauna da época: elefantes, rinocerontes,
crocodilos e tigres freqüentavam seus pântanos. Atualmente esta região, varrida
pelo vento, é nua e árida. Mas é o lugar de Kot-diji, situado acima do nível do
Indo, explorado em 1955-1957, que anuncia por vários indícios, essa civilização
homogênea e brilhante, que durante um milênio, de 2500 a.C. a 1500 a.C., fará
do vale do Indo, com o Egito e a Mesopotâmia, um dos grandes cadinhos da
civilização do mundo antigo.
Esta civilização nova, dita do Indo ou de Mohenjo-Daro e Harappa, segundo
o nome dos dois lugares explorados, parece ter representado um papel capital na
formação da indianidade. Ela é portadora, com efeito, de germes dessa
personalidade que eclodirá perto de dois milênios mais tarde e isso apesar de
um longo
eclipse, de um sono prolongado e perturbador, depois que essa civilização
brilhante, essencialmente urbana na sua manifestação, mas de essência agrária,
se apagou enigmaticamente por volta de 1500 antes da nossa era.
Ela oferece-nos, em suma, elementos que nos remetem à civilização
sumeriana, sua contemporânea, sem por isso se apresentar como uma província
desligada dessa prestigiosa cultura mesopotâmica. A escrita indiana, para dar
só um exemplo, não tem rigorosamente nada em comum com a da Suméria.
Compreende-se mal, como a civilização do Indo chegou tão depressa a um estágio
urbano tão avançado e bem organizado; a fase preparatória necessária
escapa-nos. Constatamos simplesmente que uma plêiade de cidades - perto de
oitenta foram encontradas - coexistiram por, aproximadamente, um milênio numa
área geográfica muito extensa, comparável à Europa ocidental, desde o mar de
Oman até ao Ganges. As duas primeiras cidades desenterradas nos anos vinte,
Mohenjo-Daro e Harappa, provocaram o espanto nos especialistas; até então nem
se suspeitava da existência dessa civilização!
Uma aparição e uma desaparição misteriosas
O mistério de sua aparição duplica com o de sua desaparição; tão brutal
como definitiva a meio do segundo milênio, dá lugar a um verdadeiro vazio
cultural, a uma total regressão que perduraria dez séculos. Este período
obscuro levanta, por sua vez, muitas perguntas. Para tentar resolvê-las, Sir
Mortimer Wheeler, depois de 1946, utilizou sua pá de arqueólogo nesses lugares
que Sir John Marshall, E. Mackay, Sana Ullah, Vats, Dikshit,
Hargreaves...tinham pesquisado dois decênios mais cedo; suas observações foram
em vários pontos confirmadas.
Estas cidades-estado cercavam-se de espessas muralhas, que nos alam de
ameaças e de insegurança, tanto quanto as imponentes cidadelas, que
freqüentemente as coroam e zelam pela sua segurança e seus bairros dispostos
como um tabuleiro de damas, cortados por largas artérias orientadas na direção
do vento. Normalmente utilizava-se o tijolo cozido para as infra-estruturas e o
tijolo seco ao sol para os alicerces. Canalizações muito aperfeiçoadas levavam
a água do rio mais próximo até à mais humilde habitação; outras, constituídas
por regos, situados no meio das artérias, cobertos por pedras achatadas,
drenavam as águas sujas e pluviais; estes esgotos coletores desembocavam em
poços de decantação. Esta preocupação pela higiene e bem-estar geral apresenta
um caráter excepcional para a época, que se preocupava pouco com a sorte dos
humildes.
Sem janelas para o exterior, concebidas à volta de um pátio interior - o
pátio ibérico ou o riad árabe - as casas lembram em tudo as do Oriente
Médio com a superioridade de serem construídas com tijolos cozidos, ligados por
uma argamassa feita de gesso. Aliás, a maioria era dotada de poços e
instalações sanitárias domésticas (cozinha, banheiro, piscina...)
totalmente desconhecidas das brilhantes civilizações vizinhas contemporâneas. Muitas tinham um
andar ou até dois que deveriam ter sido construídos sobretudo com madeira.
Agrupavam-se em verdadeiros blocos ou bairros mais ou menos reservados a
corporações diferentes. Seu arranjo mostra-se muito superior ao das casas de
culturas futuras, tais como as de Taxila no período dos Kushan.
Nos bairros públicos encontraram-se instalações imponentes de celeiros,
que possuíam um engenhoso sistema de isolamento e ventilação; sua importância
sugere uma organização social avançada e estruturada. Alguns comparam estes
celeiros públicos a verdadeiros bancos nacionais, servindo o cereal de moeda de
troca, de unidade de referência. Todas as mercadorias eram avaliadas por
medidas de cereais. Aliás, a mais importante ocupação e a prosperidade os
Indianos repousava na intensa atividade agrícola, que proporcionou a atividade
citadina complementar.
Ficamos verdadeiramente admirados de, nesses tempos
profundamente religiosos, não encontrarmos templos ou vestígios da estatuária que os povoaria, como
foi regra noutros lugares durante toda a antiguidade, nem sequer estatuetas de adoradores em atitude de
oração diante de sua
divindade. Podemos concluir que a religião ficava num plano secundário? Num
plano inferior, talvez, ao da religião no Egito e Mesopotâmia, ainda que pareça incrível, que a
religião fosse negligenciada nesta época e nesta Índia donde partirá o budismo. Sem dúvida
revestir-se-ia de formas que desconhecemos ainda.
As figurinhas
de pedra ou
bronze encontradas (somente onze peças fragmentadas de pequeno formato para todo o Mohenjo-Daro) e grande
quantidade de figurinhas em argila, contribuem para uma certa documentação sobre esta sociedade e seus meios de expressão.
Parece que a natureza do material utilizado levava os artistas ou os modeladores a duas vias diferentes que testemunham duas estéticas e dois universos
distintos. Com efeito,
tanto uma
estatueta em calcário representando um homem nu de Harappa, sem braços nem
cabeça, pode surpreender-nos pelo seu naturalismo, pela sensibilidade da
modelagem e a acuidade da observação - uma certa qualidade de observação e um
acabamento da obra que só reaparecerão na Grécia - como as numerosas placas de
argila retomando o tema da opulenta deusa-mãe das civilizações agrárias, de
corpo geométrico, esquemático, recortado e incrustado, braços sem mãos
terminando em pontas, olhos igualmente incrustados até mesmo com grãos de café,
remetem-nos a uma concepção de arte diametralmente oposta mas não menos
sedutora. Talvez esta segunda concepção, mais idealista, traga em si mais
mistério e fervor. Alguns especialistas aventaram a hipótese destes bustos
mutilados de homens nus representarem sacerdotes oficiando em sua nudez ritual,
praticada na mesma época na Mesopotâmia; outros vêem neles representações de
divindades. Na realidade ignoramos tudo acerca dos deuses da época.
Mohenjo-Daro e Harappa também não testemunham a existência de palácios ou
de túmulos reais. Daí a conclusão de que um regime democrático fosse já uma
realidade nesse tempo, esta audaciosa suposição foi admitida, sendo esse avanço
surpreendente para a época. Nestes milênios de tirania, de insegurança, de
religião e magia oficiais, uma tal conclusão surpreende e torna-se dificilmente
aceitável,
mesmo se constatarmos todo o interesse manifestado pelo destino do povo, numa
época em que se fazia tão pouco caso disso.
No domínio da arquitetura nota-se igualmente a não menos surpreendente
ausência de decoração esculpida na pedra ou no gesso; nem capitéis, nem lintéis
trabalhados, nem balaústres, nem frisos... nenhuma intenção ornamental foi
deduzida na disposição, sempre banal, dos tijolos. Poderemos nós imaginar, que
a arquitetura tomasse um aspecto severo e rigoroso nesta Índia, que há milênios
aprecia as mais ornamentadas e barrocas fachadas, as mais rebuscadas que o
espírito humano concebeu? Nesta Índia primordial em que adivinhamos muitas
primícias idade de ouro que virá, supõe-se que o gosto pela decoração profusa e
abundante estava circunscrita a guarnições de madeira e lambris esculpidos
pelos quais sabemos haver uma preferência persistente; mas isto é pura hipótese,
pois a natureza do solo e a do clima parecem nada ter deixado subsistir.
Pode-se igualmente supor a presença de decorações caiadas, como observamos
atualmente nas fachadas de certos templos do sul da Índia.
Cidades de concepção democrática
De tipo agrário, esta civilização conheceu o uso do cobre e do bronze,
não o do ferro. Para a olaria usava-se o forno. A maior parte da população
pastoreava os rebanhos e cultivava o trigo, a cevada, o gergelim, pepinos e
colhia tâmaras; esta relativa prosperidade facilita o progresso de uma pequena
constelação de cidades-estado, que salpicou a gigantesca extensão do vale do
Indo e afluentes e invadiu mesmo o vale do Ganges na direção leste. A primeira
a ser-nos revelada, pouco depois do conflito mundial de 1914-18, foi Harappa,
às margens do Ravi, cujo imenso campo de ruínas abandonado servia há meses de
depósito de tijolos para construção do balastro dos caminhos de ferro do
Pendjab. Alertados tarde demais, os arqueólogos esforçaram-se por tirar algumas
informações dos restos esparsos e revolvidos desta extensa cidade - mais de
cinco quilômetros de circuito - irremediavelmente pilhada.
Felizmente, quase ao mesmo tempo, um arqueólogo hindu, M. R. D. Banerji,
trabalhando nas escavações de um mosteiro budista que coroava um gigantesco
campo de ruínas bem mais ao sul, em Mohenjo-Daro, estabelecia uma relação entre
os destroços recolhidos naquelas ruínas e os objetos encontrados em Harappa.
Avisados, pesquisadores ingleses em breve acorreram ao local, menos extenso que o precedente,
mas oferecendo em contrapartida a vantagem de não ter sido tão pilhado e
esvaziado. Esses pesquisadores trabalharam alguns dos 260 hectares que as
ruínas ocupam, com mais de 1.200 metros de comprimento; no setor mais elevado,
separado do campo de ruínas principal, a poente do local, reconheceram uma
cidadela e o bairro público e administrativo da cidade, enquanto que a levante,
na cidade baixa, a mais vasta, descobriram bairros mais populares, reservados
às habitações, às pequenas oficinas e comércio. No passado, o Indo - que depois
se deslocou três quilômetros para leste - ladeava esses ativos bairros onde até
cais acostáveis foram encontrados. Sem dúvida, que a cidade se enchia do ruído
comum às cidades do Oriente, mas aqui as ruas não eram sinuosas e chegavam a
ter perto de quatorze metros de largura.
Esta cidade baixa, disposta como um tabuleiro de damas, testemunha um
verdadeiro planejamento urbano amadurecido e preestabelecido; aqui estamos a
léguas das cidades orientais, que se lançam, anarquicamente, em todas as
direções, suas ruas estreitas e sinuosas como "tocas de coelhos" para
traduzir a feliz expressão de um explorador inglês. A presença freqüente de
banheiros - de um gênero que se mantém até hoje em todo o subcontinente indiano
- nas casas, mesmo modestas, são o testemunho de uma preocupação geral pela higiene e o
conforto; por estas características, antípodas da política egípcia e
mesopotâmica, que confiscava em proveito dos deuses e dos poderosos todo o
esforço coletivo e que visava o colossal (construção de pirâmides, de
zigurates, de templos famosos como Karnak), a civilização indiana merece a
consideração em que é tida hoje; ali, nada de templos gigantes, de pirâmides
colossais, de torres de Babel! É certo, que as preocupações pareciam ser de
ordem mais utilitária do que religiosa ou política. Assim, o bem-estar era
melhor repartido nesta população urbana, que parece ter amado a vida e uma
certa ostentação, como o testemunha a abundância de joalheria.
Entre os edifícios públicos do bairro alto da cidadela, o que chama a
atenção é um complexo de compartimentos articulados à volta de uma piscina, sem
dúvida um tanque de purificação para os fiéis, se levarmos em conta o
tradicional e atual costume dos crentes de tomar banho regularmente na água
sagrada de um rio ou na de um tanque de um templo. No ritual indiano o banho
individual desempenha um papel de grande importância.
Assim, parece que a religião hindu desde esses enigmáticos tempos,
apresentava já um caráter mais ritual que cultural, mais personalizado do que
coletivo, em que se confiava numa clerezia. Este aspecto da religião manteve-se na Índia,
onde o rito mais popular é ainda esse banho solitário do crente. Mesmo lado a
lado de seus irmãos de religião, o que mais impressiona neste rito de
purificação pela água, é o ar ausente do oficiante, que se comporta como se
estivesse só com a sua divindade. Assim sendo, é absolutamente necessário ver
no "Grande Banho" de Mohenjo-Daro, o protótipo dos tanques rituais de
purificação, que se encontram através de toda a história indiana. A existência de instalações
cuidadas à volta desta piscina, como pequenos compartimentos com banheiras, uma
galeria circundante com pórtico e degrau, parecem confirmar a finalidade
religiosa do conjunto. Mal se concebe, que um complexo tal, pudesse ser um
simples reservatório e a concepção profana de uma piscina de recreio, também
não teria cabimento nestes tempos recuados.
Mas a grande originalidade desta importante cultura reside principalmente
nos seus famosos e inumeráveis selos - mais de 1.200 foram recolhidos só em
Mohenjo-Daro! - côncavos, na sua maior parte, gravados na untuosa esteatite,
instruem-nos sobre a fauna da época, talvez também sobre a teogonia dos hindus.
Búfalos, touros, zebus, elefantes, tigres, rinocerontes, íbis, antílopes,
esquilos, crocodilos, serpentes... todos estes animais sugerem uma natureza
mais verdejante e arborizada do que hoje. Como foi preciso abater muitas
árvores durante uma dezena de séculos, para construir, esculpir, alimentar as
lareiras domésticas e cozer tijolos aos milhões, não teriam os hindus
perturbado o equilíbrio ecológico levando toda a zona do Indo a um lento e
progressivo deperecimento? Temos a certeza, que no início da nossa era a região
estava coberta por uma imensa floresta.
Por outro lado, numerosos orientalistas interpretaram essas
representações animais, vistas de perfil, quase sempre em repouso, como
emblemas, símbolos divinos. Neste panteão voluntariamente animalista, foi
encontrada em Mohenjo-Daro, por três vezes, a presença de uma personagem
sentada em atitude de alfaiate sobre um tamborete dotada de três rostos e
grandes chifres; neste estranho deus rodeado de feras, viu-se o protótipo do
futuro deus Siva, na sua metamorfose (avatar) particular de animal e sob a
forma "Trimurti ", quer dizer tricéfala.
Por seu lado, o culto da serpente, sobretudo da cobra-capelo, muitas
vezes associado ao do touro, remete-nos de novo para o deus Siva uma vez que
são os seus dois animais emblemáticos; a serpente, evoca o domínio subterrâneo
da morte, enquanto que o touro, simboliza a fecundidade e refere-se ao sol que
fertiliza, enviando-nos para o domínio celeste. Siva, com efeito, será
freqüentemente
figurado com uma serpente enrolada ao tronco e montado sobre o touro Nandin.
Foi várias vezes encontrado um enigmático animal com um único e grande
chifre, fazendo lembrar o licorne, que simboliza o deus nacional da Babilônia,
Marduque. Este animal fabuloso é representado às vezes diante de uma espécie de
altar, talvez uma mesa para oferendas, que alguns interpretam prosaicamente
como uma manjedoura! Além disso, a presença de folhas de pipal - uma espécie de
figueira considerada na Índia como árvore sagrada - confirma igualmente o
caráter emblemático provável dos selos achatados e não cilíndricos, como os da
Mesopotâmia, com forma de barrilete. Enfim, a presença de sinais pictográficos
ser-nos-ia de grande ajuda - se tivéssemos possibilidade de os interpretar!
Infelizmente, ainda não nos confiarem a chave do seu mistério e não os podendo
traduzir e compreendê-los, contentamo-nos em saber que a sua leitura é feita da
direita para a esquerda...
Qual era a utilidade desses selos? Ignorâmo-lo. Seu grande número intriga
tanto como sua extrema diversidade. A presença, às vezes, de um anel de
suspensão faz-nos pensar, que se poderiam pendurar ao pescoço ou ao peito do
seu possuidor. Para fins práticos? Por exemplo, para marcar e selar cápsulas de
argila apostas nas talhas e fardos de mercadorias? Para fins religiosos, procurando
o indivíduo colocar-se sob a proteção de divindades escolhidas por causa das
suas atribuições bem definidas? Para estes dois fins ao mesmo tempo? Ter-se-ia
procurado colocar as mercadorias referenciadas no nome do proprietário, sob a
custódia de gênios benfeitores, representados nos selos pelos seus emblemas. De
resto, o caráter sagrado e temível daquilo que está selado, mesmo por uma
autoridade civil, não se mantém até hoje? Selos, marcas de propriedade,
amuletos, talismãs...eram sem dúvida tudo ao mesmo tempo!
Os selos permitiram datar uma civilização desconcertante; alguns foram,
com efeito, encontrados em Elam e na Mesopotâmia sumeriana, em Ur, Kish, Tello,
Khafadje, Tell-Asmar...e até em Tróia (no nível datado de 2300 a.C.);
inversamente, um século-cilíndrico elamita foi também encontrado em
Mohenjo-Daro. Estas descobertas, em contextos bem datados, permitiram precisar
melhor a época desta civilização dotada de escrita, mas ainda sem história: nem
nomes de cidades, povos, ou soberanos...por enquanto.
Um grande especialista como Marshall, hesitou entre datas compreendidas
de 3250 a.C. e 1000 a.C.! Hoje, parece, que as datas propostas por Sir Mortimer
Wheeler encontram a adesão de numerosos especialistas: de 2500 a.C. a 1500
a.C., este milênio não deve levantar objeções. Mas, que uma primeira cultura,
mais antiga, tivesse sido encontrada há pouco, que recuasse estas datas até
3000 a.C., isso não surpreenderia nem mesmo a esses especialistas. Com efeito,
sondagens feitas pelo Dr. George F. Dales, perto da cidade baixa de
Mohenjo-Daro, fizeram crer que a cidade repousa perto de 30 metros de
escombros, dos quais dez somente foram investigados. Será muito difícil levar a
exploração para além disso, pois o nível do rio elevou-se mais ou menos oito
metros desde há 3.000 anos, toda a zona profunda do local encontra-se alagada
pelas águas de infiltração.
Assim, numa época imprecisa, que se situa por volta de 1500 a.C., estas
cidades foram todas abandonadas por razões misteriosas: cheias catastróficas
que provocaram deslocamento do curso dos rios? Uma grande perturbação
ecológica, por exemplo, uma seca extrema? Inversões vindas pelo famoso
desfiladeiro de Khyber, como a dos Árias, que se estende por três séculos (1500
a.C. a 1200 a.C.)? O perturbador achado, nas ruínas, de cinqüenta cadáveres
confirmaria a tese de um fim brutal. Essas pessoas não teriam tido tempo de
fugir e foram massacradas nas ruas; encontraram-se corpos decapitados, de
crânio fraturado; uma mulher perseguida que quebrou a cabeça numa escada. Uma
certeza: depois deste massacre a cidade foi totalmente abandonada. Não se vive no
meio de cadáveres e estes estavam insepultos. De todo o modo, o declínio já
estava lá, pois constata-se, que o último nível de ocupação da cidade traduz um
nítido recuo no cuidado da construção, que era de má qualidade. As casas
parecem quase pardieiros implantados numa cidade moribunda. Chegou-se mesmo a
dar um nome a esta medíocre cultura: Jhukar, e situa-se entre 1700 a.C. e 1500
a.C.
Onde estariam os geniais criadores da grande civilização hindu? Foram
dizimados por terríveis epidemias? Neutralizados por flagelos insuperáveis
(cheias, secas, salinização do solo...)? Eliminados por invasores? Ignorâmo-lo.
Talvez tenhamos de apelar para todos estes fatores ao mesmo tempo. Assim, esta
civilização permanece misteriosa do começo ao fim, de suas origens à sua
destruição. Não é menos verdade que já se vêem nela traços do futuro gênio
indiano, o que nos obriga a considerá-la como sendo de essência puramente
indiana.
Dos vedas ao Islã, um vôo de vinte
séculos
No decorrer do segundo milênio antes da nossa era, todo o mundo antigo
foi abalado por invasões, movimentos de populações, que se entrechocaram como
um movimento de ondas, cujo centro principal de origem emanava da Ásia central.
Com intensidade diferente, todas as regiões foram afetadas: os Dóricos
instalaram-se na Grécia, os Hititas na Anatólia e os Árias nos planaltos
iranianos e na Índia setentrional. Estas tribos arrastaram outras na sua
passagem. Quando os Árias - daí em diante os Indianos históricos - aparentados
com Iranianos, como
o demonstra a língua, se espalharam entre 1500 a.C. e 1200 a.C. pela planície
indo- gangética,
foi-lhes necessário empurrar as populações indígenas recalcitrantes em direção
ao Decão. Atualmente, etnias como os Tamuls, os Tégulus e os Kanara, de raça
dravidiana, e os Munda, repelidos igualmente para a Índia central, constituem
núcleos de sobrevivência do antigo substrato aborígine, que se esforçava por
sobreviver ao lado do ocupante.
Temendo ser absorvidos por esta massa de submetidos que restava, os
conquista- dores, mais bárbaros, mas dotados de melhor armamento, instauraram
uma sociedade fechada e compartimentada em castas, fundada primeiro numa
descriminação racial baseada na cor da pele, depois na função social. Ao alto
da pirâmide, os Sábios ou brâmanes, depois os Guerreiros ou xátrias, em seguida
os Camponeses ou vaicias e enfim os Sudras para os servir. Quanto aos
autóctones, não assimilados, ficavam "fora das castas"!
Durante várias gerações, os brâmanes transmitiram oralmente os Livros do
Saber, os Vedas, que se aparentam com o Avesta do Irã e só serão registrados
escrito a partir do século VI antes da nossa era, quando a escrita de origem
aramaica foi introduzida no Pendjab, sem dúvida pelas administrações do
ocupante persa aquemênida. Este conjunto literário - os Vedas - vibra de poesia naturalista
e apresenta-se como
uma compilação de cantos e hinos litúrgicos, acrescentada de todo o ritual a observar nos
sacrifícios.
Antigos pastores nômades, os Árias, introduziram sua teogonia constituída
essencialmente por divindades astrais, celestes e atmosféricas: o Sol (Suria ou
Vishnu), o Céu estrelado (Varuna), o Céu trovejante (Indra) e os deuses da
Tempestade, o Fogo (Agni) e toda uma plêiade de divindades e gênios
secundários. Ao longo dos séculos, vingança dos vencidos, esta teogonia não
cessaria de evoluir num sentido cada vez mais influenciado por eles.
Ao texto sagrado dos Vedas, juntar-se-iam, em breve (por volta de 600
a.C.), outros textos mais especulativos: comentários religiosos, os Brahamana e
os Upanichades lições esotéricas, num verdadeiro-conjunto de meditações
filosóficas. Foi então, que se elaborou o dogma fundamental, que regeu todo o
pensamento indiano: o do Samsara, ou da transmigração, do ciclo sem fim das
reencarnações ao qual todo ser vivo está condenado. Estas vidas sucessivas,
estes perpétuos renascimentos são determinados pelo caráter variavelmente
meritório das vidas anteriores; em suma, tem-se a vida que se mereceu toda a
existência dos futuros budistas será orientada pelo desejo de fugir
definitivamente deste ciclo infernal.
Do seio dos Yogin, ou ascetas brâmanes, que vivem retirados nas florestas
para meditar, sairiam duas novas religiões, o jainismo e o budismo, enquanto a
teogonia indiana não cessava de proliferar e de se vestir de lendas cada vez
mais poéticas e maravilhosas. Com efeito, essa sociedade védico-brâmane,
petrificava a sociedade que se esfarelava numa infinidade de subcastas. Esta
rigidez paralisante devia provocar no século VI a.C. os dois grandes cismas,
que parecem mais de origem social que religiosa, visando romper as estruturas
muito compartimentadas da sociedade brâmane. O jainismo foi pregado por um
monge de origem real, Vardhamana, apelidado de Jina, o Vitorioso, e o budismo
por um obscuro príncipe dos confins do Nepal, Siddharta Gautama, chamado o
Sábio, quer dizer Buda, que não admitia o sistema das castas. Estas duas
religiões, nascidas quase ao mesmo tempo no século VI antes da nossa era, terão
o desenvolvimento brilhante de que temos conhecimento.
Abalado, o bramanismo reagiria e orientar-se-ia numa via que originará
mais do que uma religião, uma verdadeira civilização. Hoje ainda, a filosofia,
as crenças, os ritos, os mitos e lendas brâmanes continuam rigorosamente
enraizados e vivos. Claro que o seu exagerado panteísmo, um pouco idólatra,
pode surpreender-nos à primeira vista, na realidade não passa de uma
"cortina de névoa", uma irradiação infinita do conceito do Deus
único: “Deus está em tudo". Estas inumeráveis divindades, cósmicas na
origem, serão todas sobrepujadas e dominadas, sem exceção, pelas personalidades
esmagadoras de Siva e de Vishnu, que constituem com Brama, a Trimurti, (a
tríade) brâmane. O último dos três deuses não atingirá nunca a imensa
popularidade dos dois primeiros. No bramanismo, o caminho apresentado ao crente
para romper a engrenagem da transmigração é o yoga, que ambiciona um
conhecimento e uma concentração interior, adquiridos através de um severo ascetismo
do corpo e do espírito.
Desde a queda da civilização de Mohenjo-Daro, a planície indo-gangética
tinha sem dúvida seus deuses, seus mitos, sua maneira de sentir e de pensar,
mas já não tinha arte. Será preciso esperar a passagem de Alexandre que, indiretamente,
avivará as brasas que incubavam há séculos. Um rei de Magadha - o atual Bihar -
inspirando-se em Apadana de Persépolis, mandou construir um palácio que
espantou o viajante grego Megástenes. Saía-se da "' arquitetura" de
lama, palha e madeira! Magadha parece que desempenhava um papel considerável na
história indiana, dominou todo o vale gangético nos séculos VI e V a.C. Pode-
se considerá-lo como o berço da Índia antiga; é em Magadha, com efeito, que
nasce o budismo, o qual obteve um extraordinário eco tanto no pensamento como
nas artes plásticas. Pode-se considerar, que toda a produção artística dos dois
últimos séculos antes da nossa era, traz a marca exclusiva da religião budista.
Com o soberano
Asoca (272 a 231?) acaba o longo silêncio da arte, que tinha desaparecido com a chegada dos Árias. O
primeiro império indiano da história será obra da dinastia Mauria (322
a.C. a 187 a.C. ?),
cuja mais ilustre personalidade foi o soberano Asoca. Convertido ao budismo, conseguiu levá-lo à quase totalidade
da península indiana,
onde chegou a exercer sua soberania. Realizava assim a primeira unificação
política e favorecia a volta a uma arte digna deste nome. Com ele vemos aparecer o uso da pedra, tanto em arquitetura como em
escultura. Na construção, segundo um reflexo freqüentemente observado, o trabalho na pedra inspira-se diretamente
nas técnicas utilizadas
na madeira, reproduzindo
paradoxalmente todos os elementos do madeiramento.
Fez gravar em altas colunas de pedra - que se encontraram dispersas por uns trinta lugares mais ou menos -
éditos que pregavam uma moral universal de rara elevação. Mas, depois da sua morte, o continente retornou rapidamente ao
desmembramento político que tantas vezes conheceu. No decorrer dos últimos séculos antes da nossa
era, o repertório
iconográfico do budismo elaborava-se lentamente, assimilando fórmulas
decorativas estrangeiras, gregas, alexandrinas, mas sobretudo
irano-aquemênidas. Foi sem dúvida do Irã, que veio a singular técnica da
escavação rupestre, monolítica, que aparece por volta de 80 a.C. e que se
manterá por muito tempo (até aos séculos VIII e IX d.C.). De Pataliputra, a
capital de Asoca e de seu palácio, que tanto espantou Megástenes, pouca coisa
resta.
Foi nesta época, que apareceram os primeiros stupa, tão peculiares na
Índia, esses grandes relicários em forma de tumulus, hemisféricos,
encimados por um mirante munido de um guarda-sol (cujo desenvolvimento dará o
pagode!), símbolo de autoridade e dignidade. O maciço era contido dentro de uma
balaustrada ligeiramente recuada; esta galeria intersticial, a céu aberto,
servia para a deambulação ritual, circular e repetida, tendo o edifício à
direita, ou à esquerda, em sentido inverso, para os ritos funerários. Esta
balaustrada e a base do stupa de um e de outro lado fiel, eram ornamentadas com
uma infinidade de pequenos baixos-relevos narrativos, ilustrando a vida de
Buda, colocados aí para sua edificação. Nos lugares de Sanchi, Bharhut e
Bodhgaya, existem ainda alguns muito nítidos.
Na Índia, a escultura sempre se integrou na arquitetura, a ponto, de às
vezes, transformar os edifícios em verdadeiras esculturas monumentais (como a
de Mahabalipuram, Ellora...) ou em grandes tapeçarias esculpidas (como em
Madurai e os Gopurás de
Tiruvannamalai).
Neste baixos-relevos narrativos do início, a imagem de Buda não era
reproduzida, mas sugerida por símbolos: a marca das suas pegadas, seu guarda-sol, seu cavalo ou seu
trono vazio... Esta regra iconográfica cheia de respeito, desaparecerá no
século II da nossa era. Espontâneo e vivo, o estilo de Bharhut,
permanecerá como um dos mais atraentes da Índia e lembraremos sempre das provocantes Yakshini -: estas divindades populares
contraditórias, que são ao mesmo tempo deusas da fecundidade e comedoras
de crianças! - suspensas nos lintéis dos pórticos de Sanchi. Não é menos
sensual, o marfim encontrado nas escavações de Pompéia e que nos mostra uma
princesa vestida só com suas jóias.
O
Buda e os budas
Abrangendo os cinco primeiros séculos da nossa era, este período será
igualmente influenciado pela cultura helênica, que se prolonga, e sobretudo
pela do Irã sassânida. Este período é tão confuso como o precedente e por volta
de 120 da nossa era, vemos Citas afluir do Irã, num remoinho de turbulentas migrações de tribos seminômades mongóis,
rechaçadas pelos Hiong-nu - os Hunos. Um poderoso império surgia, estendendo-se
do Oxus à bacia do Ganges, tendo como pivô o Afeganistão; sua influência
chegará até à Indochina. De origem Yue-tche, a dinastia dos Kaniska (144-172?),
cujo zelo budista é bem conhecido.
Os Kushana deixaram-nos inumeráveis esculturas, que nos documentam sobre
sua próspera sociedade. Os dois primeiros séculos da nossa era foram marcados
pela extraordinária e intensa densidade das trocas comerciais, em todas as
direções, desde o Mediterrâneo até à China e pôs em contato os mundos grego,
egípcio, romano, árabe, iraniano, indiano, chinês, etc... As idéias e as artes
deviam forçosamente ressentir-se desses contatos.
Na Índia, no século I, o budismo dividiu-se em duas tendências: o Pequeno
Veículo permanece fiel aos textos primitivos, enquanto que o Grande
Veículo dá mais importância ao divino e aos comentários dos textos,
evoluindo cada vez mais para o misticismo. Outros budas juntam-se ao Buda
histórico Sakyamuni. Seis principais precederam-no, um outro é esperado,
Maitreya. Ele pertence ao número dos bodhisattva, os Salvadores de compaixão
infinita que o Grande Veículo multiplica e venera de tal modo, que
suplantarão e mesmo substituirão os budas no culto. Para melhor se consagrarem à felicidade de
seus adoradores, os bodhisattva retardam o momento de sua entrada no Nirvana!
Em escultura, a imagem canônica do Buda precisa-se; escultores de imagens
fixam alguns dos 80 sinais que o distinguem: a protuberância craniana - que é a
deformação mal interpretada de um coque -, um tufo de pêlos entre as sobrancelhas, as três pregas no pescoço, a
Roda da lei figurada na palma das mãos ou na planta dos pés, o hábito
monástico, etc... Fixam-se cânones não menos rigorosos para suas atitudes e
gestos das mãos e cada qual se reveste de um significado simbólico, preciso,
como uma verdadeira linguagem: meditação, caridade, descontração, concentração,
prédica, declaração, gestos para tranqüilizar ou para tomar a terra como
testemunha...
Por seu lado, a iconografia brâmane elabora-se igualmente, e ainda que o
fervor popular começasse a distinguir os semideuses Krishna e Rama, só muito
mais tarde triunfariam no domínio das artes.
Três escolas para a arte
Distinguem-se três escolas principais na Índia dos três primeiros
séculos, escolas cuja coexistência compreendemos mal: a noroeste, aquela em que predomina o estilo
greco-budista; a nordeste, o estilo de Mathura, e a sudeste, o de Amaravati.
Nestas três escolas aparece no século II, a imagem do Buda canônico descrito
atrás.
A arte greco-budista
nascida por volta do ano 50 da nossa era, na região de Peshwar, desenvolve-se
essencialmente no território de Gandara e do Kapisa e, segundo os mais recentes
trabalhos, ter-se-ia prolongado até aos séculos VII e VIII, paralelamente à
arte gupta, em certas regiões distantes, como Caxemira. Motivos de inumeráveis
estuques e relevos em xisto, provinham do mundo clássico; palmas, pampros e
cachos de uvas, Baco, atlantes alados, amores carregados de grinaldas, roupagens,
penteados e enfeites, a silhueta e os traços apolíneos de Buda.
A segunda escola irradiou para longe - até Longmen na China - desde
Mathura, a capital religiosa e artística dos dinastas Kushana; segue-se sua
produção durante perto de seis séculos, do século I antes da nossa era até
perto de 550. Mas seu apogeu situa-se no século II.
De resto, a cidade conscientemente destruída, só nos legou uns restos de
arquitetura. Esse estilo, melhor seguido noutros lugares, diz-se o herdeiro da
estética indiana de Bharhut e de Sanchi, com traços helenísticos inevitáveis na
época, bem entendido, mas também iranianos, se observarmos o vestuário.
Entretanto, a imagem de Buda, que se generaliza, não deve nada ao estrangeiro:
personagem maciça, crânio prolongado por uma protuberância, o manto monástico,
deixando uma espádua nua, ele levanta sua mão direita para tranqüilizar.
Se essa escola dispunha de um arenito rosa-escuro para a estatuária, a
terceira escola, a de Amaravati, reconhece-se pelo emprego que fez de um
mármore claro. Sua criação não escapa à influência alexandro-romana da época,
mas reveste-se de um aspecto mais moderado, mais selecionado (escolhido). Sua
produção seguida até ao século IV, deu-nos igualmente uma imagem nova e mais
dravidiana de Buda. Por mais individualizadas que fossem, essas três escolas
apresentam no panorama artístico desses primeiros séculos, uma unidade real, e
suas várias manifestações arquiteturais, os caracteres da escultura e da
pintura têm aspectos comuns de uma província a outra. Continua-se a cavar
santuários e mosteiros na rocha das falésias, a construir stupas (relicários)
segundo os planos antigos retomando os mesmos motivos; os vãos e as portas em ferradura - dito “o arco indiano" - e as lucernas ditas Kudu, de
perfil idêntico.
Os stupa continuavam a ser ornados de abundantes relevos, pintados
regularmente - não
o esqueçamos, mesmo se não encontrarmos nenhum vestígio disso, e os templos de
esculturas.
Jeannine Auboyer sublinhou o caráter altamente sedutor das obras da escola
de Mathura: “Figuras
ao mesmo tempo de uma juventude de expressão e de uma plenitude de formas, elas refletem
alternadamente a gravidade dos reis Kushana, esses homens da estepe ainda
revestidos do pesado vestuário dos nômades, cobertos pelo barrete cita, ou a
sorridente voluptuosidade das mulheres, cujo corpo opulento, se inflecte na
pose canônica do "tribbangga" de tripla flexão. Sem brutalidade,
sóbria de expressão, a arte Mathura estiliza a graça robusta com incríveis
delicadezas ".
Por seu lado, as obras de Amaravati, oferecem seu dinamismo não menos
elegante e uma graça enlanguescida, própria da Índia meridional. Entre estes
dois centros maiores, Mathura e Amaravati, é preciso colocar o extraordinário achado feito em
Begram, a 30 quilômetros ao norte de Cabul, uns 600 marfins de origem indiana.
Encontrados pela missão (1937-1959) de Joseph e Ria Hackin, podemos
considerá-las como uma das descobertas mais espetaculares do século; lacas
chinesas, bronzes, vidros greco-romanos, uma meia centena de emblematas -
formas de gesso de interiores de pratos gregos - foram igualmente encontrados
nesse tesouro escondido e emparedado em duas salas, abandonado
precipitadamente, parece, por causa de invasores. A diversidade de suas origens
(Alexandria, Grécia, Roma, China, Índia...) testemunha a espantosa intensidade
de trocas, no decurso dos dois primeiros séculos da nossa era.
Muitos desses marfins provêm do mobiliário indiano (cadeiras, tamboretes,
pequenos cofres...) e confirmam o que nos mostra a iconografia, esculpida ou
pintada, revelando-nos igualmente as narrativas escritas. O extremo virtuosismo
e a diversidade de técnicas - são cinzelados, abertos e fechados, recortados,
esculpidos em relevo ou pintados... - a sedução dos temas (jovens mulheres em
sua toalete, brincando com pássaros, ou tocando harpa, descansando...) o
requinte das poses e das decorações cativam-nos imediatamente.
Este grafismo tão puro, esta mestria das formas, este gosto suave pela
plástica feminina, reencontramo-lo nas raríssimas pinturas conservadas em duas
cavernas de Ajanta, que anunciam a notável pintura gupta. Vêem-se, aí, jóias do
mesmo tipo que as encontradas em Taxila. Enfim, é preciso dizer também, que foi
esta a época de ouro para numismática, que declinará totalmente logo depois.
A arte Gupta
Por volta de 320, na bacia do Ganges, uma nova dinastia, desta vez
indígena, a dos Gupta, erigia um vasto império de tendências brâmanes: assim,
se aproximava o lento declínio do budismo no norte da Índia. Com esta dinastia,
que se manterá um século e meio e durante o período pós-gupta, que se prolonga
até ao século VIII, a arte indiana viverá sua idade de ouro", seu
período dito clássico, atingirá
o ponto de equilíbrio e dará sua expressão mais autêntica e equilibrada. Como a
política dos Gupta era poderosa, a expansão da arte revelar-se-á também
considerável; estender-se-á até ao Japão, deixando, contudo, sua influência
mais perfeita, no sudeste asiático. Seus soberanos mais notáveis, usam no
século IV, o nome de Sandragupta.
O renome espiritual da Índia dos Gupta e do período que se segue, atrai
viajantes de muito longe; os Chineses ficaram célebres. O monge budista Fa-hien
deu a conhecer a prosperidade e espírito de justiça, que reinava na capital,
Pataliputra (401-410); Hiuan-tsang, informa-nos sobre a vida indiana do segundo
quarto do século VII; Yi-tsing instrui-nos sobre os últimos 25 anos, depois da
extinção da dinastia, devido à passagem dos Hunos helefalitas, vindos de
Bactriana. A Índia estava de novo dividida, e numerosos príncipes recobraram
a sua independência. Deste
desmembramento,
emerge o Decão, a dinastia Chalukya, que cobrirá a província de tesouros
artísticos considerados entre as obras-primas da arte universal: em Ajanta,
Aihole, Badami, Auranggabad.
Desenvolvendo-se na região de Sarnath (vale dos Ganges), depois no
noroeste do Decão, em Ajanta, a arte gupta (séculos IV a VI) e seu
prolongamento, o estilo pala de Bengala (séculos VIII a XII), deram igualmente
um rosário de obras-primas: os budas de Sarnath e de Mathura (século IV a V),
os afrescos de Ajanta (século VI) e os alto-relevos de Mahabalipuram (século
VII) e de Ellora (séculos VII a VIII).
Durante esta idade média indiana, a arquitetura evoluiu abandonando nos
santuários o plano absidal e alongado, ganhando em verticalismo. De resto, a
arquitetura rupestre continuava em graça e em Ajanta como em Ellora, cavaram-se
até trinta cavernas-santuário no decorrer deste magnificente período; forma de
ferradura - um empréstimo antigo feito às armações de madeira - eram o tema central do repertório
ornamental, acompanhadas de lótus, grinaldas, báculos, folhagens, volutas,
cabeças de monstros e monstros aquáticos ou copósitos.
Toda feita de equilíbrio e de harmonia, de encanto e amenidade, a
escultura em alto relevo, abunda igualmente nesta época. Enquanto que as obras budistas testemunham uma compaixão
e uma ternura sem afetação pelas criaturas, as inspiradas pelo bramanismo,
procuram voluntariamente pôr em evidência o poder sobre-humano dos deuses e sua
vitalidade superior. Nos templos brâmanes, inacessíveis aos fiéis, o brâmane
oficiava sozinho à porta do santo dos santos, que continha a estátua do culto
esculpida segundo as prescrições dos textos sagrados, de regras canônicas muito
precisas. A estátua era consagrada no decorrer de uma cerimônia muito
complicada; operava-se a abertura ritual dos olhos com um toque de cor na
pupila e um retoque feito com um bastonete de ouro. Depois, procedia-se à
toalete e ao arranjo das vestes, da estátua, antes de a conduzir para o
santuário, em grande procissão, para instalá-la no seu pedestal.
Distingue-se muito grosseiramente - pois a variantes são infinitas - dois
grandes tipos de templo brâmane: os do norte, ditos de forma Nagara, que dão um
grande desenvolvimento vertical à torre (sikhara) encimando o sanutário, e o
estilo do sul, dito Dravida, que recobre o santuário de um vimana, enorme
maciço piramidal com andares em afastamento sucessivo, cujos motivos esculpidos
não são menos detalhados do que os sikhara. Nos séculos seguintes, esta
decoração será sobrecarregada até ao paroxismo, recoberta regularmente de uma berrante
policromia de um gosto discutível, que prejudica e desfigura esta arte.
Antes de declinar, a partir do século IX, para desaparecer praticamente
na Índia, três séculos mais tarde, o budismo, por sua vez criava, no período
gupta, as mais belas imagens esculpidas do Iluminado (Buda), as mais sóbrias,
as mais elegantes e humanas, ainda que pela sua extrema serenidade, participem
da majestade divina. Depois do século XII, a representação de Buda colorir-se-á
e perderá seu "esplendor".
Com uma tendência menos acentuada pelo passado, os relevos gupta
testemunham, em contrapartida, uma preocupação nova dos artistas, que
consideram, daí para cá, essa produção mais em função do edifício e de sua
inserção nele, do que uma produção independente, edificante e suficiente por si
mesma. Esta harmonia aprimorada será atingida com felicidade nos séculos VII e
VIII em Ellora, Mahabailpurna e EIephanta -lugares, têmo-lo dito, considerados
inegavelmente entre os tesouros da arte universal.
Ainda que as fórmulas decorativas em uso nesta época sejam as mesmas para
as três grandes regiões - budismo, bramanismo e jainismo - constata-se, no
domínio da escultura, que a supremacia pertence à inspiração brâmane, como podemos verificar admiravelmente nos três lugares
citados atrás: em Elephanta, a grande Trimurti, esse busto colossal com mais de
seis metros, que mostra as três faces de Siva, na gruta principal da sua
ilhota, junto a Bombaim; em Mahabalipurna (de estilo paliava), citaremos o Sono
de Vishnu, que vemos deitado sobre a Serpente da Eternidade, assim como a
espantosa descida à terra da deusa Ganga, envolvida por uma quantidade de seres
humanos, animais e monstros míticos; em Ellora finalmente - onde existe umas
trinta grutas das três religiões - (em estilo Chalukya), citemos o inolvidável
Kailasa, esse templo monolítico, que exigiu, para ser isolado da falésia, o
transporte de 200.000 toneladas de rocha vulcânica. Aí vemos desde a entrada,
nesse estilo frenético próprio da região, um baixo-relevo mostrando Gajalaksmi,
ao meio de um tanque coberto de lótus, fazendo-se aspergir por elefantes. Como
réplica, do lado oposto, Siva abraça Parvati, sua esposa, aterrorizada por um
tremor de terra, provocado pelo demônio Ravana, enquanto as criadas fogem
apavoradas em todas as direções.
As obras desta época são incontáveis e de valor desigual, mas as jóias de
arte abundam. Mencionaremos entre elas, uma coleção famosa de bronzes do século
IX - 200 peças -
que foi
encontrada num mosteiro de Nalanda; fundidas segundo o processo da cera perdida
(numa liga de
oito metais),
eram, às vezes, recobertas de uma fina camada de caulim esverdeado. Estes
bronzes revelam muitas afinidades com a arte javanesa.
Mas o que nos impressiona mais na produção artística desta época, é a
pintura mural, e mais particularmente a encontrada em Ajanta, de uma sedução
irresistível. Claro que esta pintura foi encontrada nos templos, mas a
literatura informa-nos, que ornava abundantemente os interiores dos palácios,
das moradias privadas e dos edifícios públicos. Construídos com materiais
medíocres e leves, ao contrário dos santuários, estes edifícios profanos,
infelizmente, desapareceram todos.
De inspiração budista, datadas na sua maior parte do século VI, as
pinturas de Ajanta, ilustram episódios da vida do Iluminado, dos Avadana ou
lendas piedosas, além de umas trinta de Jataka, verdadeiros contos edificantes,
narrativas das vidas anteriores de Buda, cuja revelação lhe foi feita no
decorrer da sua Iluminação. Outras pinturas foram encontradas em Gagh (em
Gwalior no século VI), em Sittanavasal e em Badami (em Maisur). Vastas
composições cobrem os muros, os pilares, os tetos destes santuários e dão, à
primeira vista, um sentimento de confusão e de sobrecarga, que desaparecem com
um exame mais atento; pelo contrário, a arte revela-se muito sábia.
“Estes afrescos", sigamos Jeannine Auboyer, "traduzem, com
um encanto particular, o refinamento desta época em que desabrocha o conjunto
da cultura indiana; transmitem-nos muitos pormenores da vida deste tempo, o
fausto das cerimônias oficiais, a intimidade das cenas familiares. Vêem-se
longos cortejos, que se desenrolam ao sair das cidades, misturando pedestres,
elefantes e cavaleiros, encimados de guarda-sóis e emblemas, ostentando a
animada miscelânea das vestimentas entre o marrom escuro da pele e o cintilar
das jóias de ouro." Casais enlaçados, orquestras tomando suas posições,
príncipes concedendo audiência, conservaram-se vivos nestas paredes.
Conjunto de mulheres, vestidas apenas de uma tanga de musselina ou de tecido listrado, cobertas de
delicados adereços, caminham sobre um chão coberto de flores; algumas estão
apoiadas em colunas, outras misturam-se às conversas dos príncipes, outras
ainda trazem bandejas de flores, moem cereais, agitam leques. Na parte superior
dos afrescos, gênios voadores circulam entre rochas estranhamente cúbicas; aqui
e ali, uma planta delicadamente observada, ostenta seus arabescos". Com
estas pinturas, é a sociedade e a indianidade inteiras, que encontramos, sob
seus aspectos mais sedutores.
Sábia e sutilmente dispostas, estas composições testemunham muita
fantasia; poses lânguidas, silhuetas em atitudes graciosas, de formas
arredondadas e delicadas, exprimem, com uma intensidade incomparável, o encanto
e o mistério feminino. Alguns indianistas notaram quanto esta arte se
aparentava com o teatro da época (Pr. Stern), o que esta devia igualmente à
coreografia indiana, onde a cada gesto, cada atitude, cada movimento da mão e
dos dedos, do pescoço, das pálpebras, das sobrancelhas, é atribuído um significado
preciso e definido, perfeitamente compreendido por todos os iniciados. Eles
acordam e suscitam imediatamente uma sensação ou um sentimento determinado e
esperado.
Sem dúvida, esta linguagem imitada é convencional e estilizada como toda a linguagem, mas que
graça, que felicidade na expressão, que finura e que elegância sensual! Quanto
mistério e melancolia nesses olhares! Tudo isso representado num estilo
perfeito, sábio e seguro. Que ciência no acabamento de formas e contornos.
Nenhuma iluminação dirigida vem esculpir, artificialmente, os modelados; a luz
difusa, não é orientada de nenhum lugar especial, mas banha as cenas de uma
poeira dourada, em que os modelados são expressos por delicadas nuanças!
Uma argamassa misturada de conchas queimadas, depois pulverizadas, serve
de suporte e antes que se fixasse na parede, misturava-se-lhe crina de cavalo,
pêlos de boi e gluma de arroz. Para as cores, os minérios intervinham mais do
que os produtos vegetais e animais. Recolhiam os pêlos das orelhas das vitelas
e de ratos almiscarados para confeccionar pincéis.
No domínio do metal, os Indianos não eram menos senhores de suas técnicas
pois foram capazes, desde o século IV, de fundir colunas de uma só peça e até
pilares ultra- passando dez metros, graças a processos de que o ocidente, se
aproximará somente quinze séculos depois. Por outro lado, estas realizações -
como a coluna de Dhara e o pilar de ferro de Delhi - foram fundidas de tal
maneira - ainda enigmática - que nenhuma oxidação as atingiu!
Refinados e sábios a este ponto, os Indianos não podiam deixar de ser
ourives geniais.
A beleza das jóias da época gupta - poucos exemplares chegaram até nós,
mas conhecemo-las através dos afrescos de Ajanta - apesar da erosão, não poderiam deixar de nos seduzir.
Notaremos também a particularidade indiana de reproduzir freqüentemente jóias
na pedra dos edifícios, como simples motivos decorativos.
Depois deste brilhante período gupta - e pós-gupta igualmente - a
autoridade decli- nou e a arte entrou em decadência. Em Bengala - num Estado
tradicionalmente aberto às idéias e as artes - sob as dinastias Pala (770-1086)
e Sena (até 1202) o budismo lançava seu último clarão antes de se apagar,
brandamente, nesta região que tinha sido seu berço. Iniciada em 711, em Sind,
por mar, a invasão muçulmana ganhava terreno lentamente, reduzindo os reinos
indianos um a um. Em 1202, foi a vez do Império Pala-sena de Bengala. A Índia
entrava parcialmente na era muçulmana.
O Último Milênio da Índia
Infiltrados desde o século VIII, os muçulmanos reocupariam à força, quatro séculos
mais tarde, a Índia. No século XI, Mahmud de Grazni (Afeganistão) conquistava a
alta bacia dos Ganges, e, no século XIII emergia o sultanato de Délhi, que
estendia a sua soberania para o sul; no século seguinte o Decão caía e só
Orissa e o sul da Índia conseguiriam manter-se, conservando em suas províncias
a tradição "clássica" herdada do passado até aos séculos XVI e XVII.
Em 1526 um príncipe turco descendente de Tamerlão, Babur, fundava uma nova
dinastia de meia dúzia de imperadores a quem o domínio, a riqueza e as ambições militares valeram
o cognome de “Grão-Mogóis".
No ano seguinte
(1527) Babur apoderava-se do sultanato de Délhi.
Com a queda do gupta, um grande número de Estados tinham-se emancipado e
chegaram, com diferente êxito, a manter-se, na verdade até a ocupar em alguns
casos, durante vários decênios, a dianteira da cena política. Uma dezena de
Estados, em momentos diversos, emergiram, depois apagaram-se: Caxemira,
Kathiawar, Gujarat, Malva e Bundelkand com a dinastia Chandella (século IX a
XIV) à qual se devem os célebres templos de Khajuraho (século XI), o Bihar e
Bengala, ao norte. No sul, os reinos de Maharashtra, de Maisur, de Karnate,
entre outros, conheciam seu momento de glória e de prosperidade antes de cair
um a um na dependência do Islã. O último, Maisur, resistiu até à batalha de
Talikota, em 1565, que sanciona a hegemonia definitiva dos mogóis sobre a quase
totalidade da Índia.
O último milênio da sua história é complexo e confuso e o parcelamento
político, provocava uma evolução das artes não menos desordenada, pois está
estreitamente ligada às perturbações religiosas deste longo período: o budismo
desaparece do solo indiano; a iconografia hindu diversifica-se, evolui e toma
um impulso considerável; o Islã estende regularmente seu domínio; o
cristianismo tenta a penetração. Estes fatores históricos e religiosos vão pesar na evolução
da arte. Com o Islã, outros objetivos, outros programas serão propostos aos
arquitetos, aos escultores e aos pintores indianos que, senhores de suas
técnicas, só abdicarão em parte de sua personalidade, Pode-se dividir este
último milênio em duas grandes épocas, a primeira correspondendo à era medieval
a seguinte podendo intitular-se "indo-muçulmana".
Unidade na diversidade
Esta Índia medieval, ainda que fragmentada, não deixa de conservar os
particularismos de sua múltipla herança e, na aparente diversidade provincial, uma unidade indiscutível.
No domínio da arquitetura observa-se o desaparecimento progressivo das técnicas
rupestres, e uma nova tendência dos mestres de obra indianos em dar uma
extensão e proporções cada vez mais vastas às suas
realizações sagradas. Paralelamente, as silhuetas dos edifícios complicavam-se,
dando à escultura, encarregada de comunicar uma animação plástica às
superfícies, um papel decorativo crescente.
Depois do século XIII, a escultura invade literalmente a totalidade do edifício e pela repetição até à saciedade dos vários
elementos
decorativos, amontoados, provoca aquele efeito estranho e atordoante
propriamente indiano e de proliferação inquietante. A superabundância dos
motivos, o dinamismo arrebatado e frenético, atingiram um ponto de
desequilíbrio que provocou uma decadência acelerada.
A arquitetura da época medieval é dominada pela conservação dos três tipos anteriores de
telhado: o sikhara ou torre-santuário, estriado horizontalmente, curvilíneo,
que se desenvolve particularmente em Orissa, mas que se encontra também em
Khajuraho (século VI); esse estilo é chamado "setentrional”. O gênero de
telhado piramidal sobre santuários de plano quadrado predomina em terras dravidianas, multiplicando os andares até dez, onde se alinhavam miniaturas de
pavilhões do tamanho de nichos (em Tanjore, por exemplo, no século XI). Enfim, o tipo de telhado em berço
colocado sobre uma sala mais alta de um lado e cujas extremidades podem abrir-se em forma de
ferradura. Freqüente no sul da Índia, este tipo de telhado deslocado e
levantado sobre as
portas monumentais
dos templos dará impressionantes gopurás. Com efeito, a acumulação de andares sobre o
santuário será abandonada e transferida para as portas do recinto, que tomam proporções gigantescas,
abundantes de esculturas
barrocas, excitantes e caricaturais.
Depois do século XII, os templos tornar-se-ão complexos, enormes, com um
desenho ditado por um simbolismo cosmológico; podem contar-se entre as mais
vastas construções religiosas do mundo. Organizavam-se à volta do santo dos
santos, flanqueados por um tanque sagrado, completado por galerias com colunas
e salas anexas destinadas aos peregrinos e dançarinas...etc., povoadas de
enormes pilares esculpidos. Sobre o princípio deste telhado piramidal e na
maior parte do território, os estilos regionais da Índia ampliariam infinitas
variantes.
O impressionante
Madurai marca no século XVII o ponto culminante dessa evolução do estilo
arquitetural. Uma agitação frenética e abundante toma conta de toda decoração.
Ficamos aturdidos e desconcertados por esses batalhões apertados de figuras,
animais grotescos e monstruosos, por estas divindades de aspecto assustador ou
burlesco. Em suma, impossível negar que esta sobrecarga decorativa faz vibrar o
conjunto de uma estranha palpitação próxima da vida!
A escultura, depois do século X, oferece no decurso de sua evolução o
mesmo caráter de proliferação e de dinamismo barroco. Observam-se os mesmos
exageros, os mesmos excessos, mas cada província procura dar um sabor e um
cunho próprio às suas criações. O que encontramos em toda a Índia é o inegável instinto de
escultor dos Indianos: Para o norte e Orissa, as obras de Konarak e de
Khajuraho são bem conhecidas, aí, vemos agitar-se nos registros dos
envasamentos dos santuários, um fantástico universo de figuras e casais
enlaçados. Segundo as concepções indianas, os escultores davam às
representações do amor carnal, um sentido ao mesmo tempo sagrado e místico que
tira toda a vulgaridade à sua tradução plástica, desajeitada, sim, mas não
desprovida de grandeza. O famoso abraço amoroso - o tribhangga - torna-se tema
e as lânguidas atitudes das silhuetas sensuais prolongam a visão dos séculos
anteriores.
A produção do sudeste indiano, no setor dravidiano, foi também abundante,
tanto em imagens de culto e em relevos integrados no edifício, como em bronzes
e teca esculpida, destinados a decorar os imensos carros de procissão,
perigosamente puxados, por ocasião de certas festas, através das ruas
formigantes de espectadores, miríades de fiéis, regados com água proveniente
dos terraços.
Os bronzes do sul ficaram famosos, renovando às vezes formas e atitudes
muito pouco canônicas, como os que reproduzem a frenética dança de Siva com
quatro braços, envolvido por sua auréola de chamas, que evoca o círculo do
mundo. Quase todos os deuses hindus eram dotados pelo menos de quatro braços,
que testemunham seus
poderes sobre-humanos.
Siva é representado freqüentemente com o tridente, com a chama espiritual, a
gazela, uma serpente, ou com o damaru, um pequeno tambor de duas peles para
melhor ritmar a dança da criação. Possui três olhos, um no meio da testa, que é
o do conhecimento perfeito. Com sua dança sagrada, é ele quem conserva toda a
vida universal.
Entre as múltiplas formas e encarnações assumidas por Siva e Vishnu,
examinemos as do segundo: Rama e Krishna, que encontrarão uma grande
preferência depois do século XIII. Os bronzes dravidianos deram a Rama uma
aristocrática finura, com exceção dos ombros, que deviam sugerir a força do leão.
Quanto a Krishna, cuja lenda é dourada por mil e um episódios familiares ou
heróicos, o fervor popular o vê, sobretudo, como o divino boiadeiro,
despreocupadamente apoiado a uma árvore, em pé, pernas cruzadas, tocando
flauta.
Com efeito, mais ainda do que Rama, a outra forma humana de Vishnu,
Krishna é o mais importante avatar (metamorfose) do grande deus. Herói de
lendas e poemas bem conhecidos dos Indianos, abundantemente popularizado pelas
suas imagens, e objeto na Índia de uma devoção excepcional é o herói dos dois
mais célebres contos hindus, o Gita-Govinda - ou conto do pastor - poema de amor,
comparado ao Cântico dos Cânticos e o Bhagavad-Gita - o canto do Bem-Aventurado
- um episódio do Maabarata, o poema mais divulgado e o mais popular da Índia, até
hoje.
Krishna desceu à terra para livrar o universo dos crimes do
malvado soberano Kamsa. Nascido em Mathura, cresce no campo e nos bosques com
os pastores. Assim como Heracles (Hércules), faísca de malícia e transborda de
força e astúcia. Adolescente, o divino boiadeiro, é adulado pelas pastoras
entre as quais distingue Radha, que tenta seduzir ao som de sua flauta. Adulto,
ei-lo guerreiro. Mas, será sempre o Bem-Aventurado - que nunca se invoca em vão!
A partir do século XIII, lentamente, pelo nordeste, a intrusão muçulmana dava na
indianidade um dos golpes mais rudes; muitos mosteiros foram aniquilados. Em
contrapartida, uma
arte nova nasceria do encontro árabe-persa timurida, introduzida pelos conquistadores, com o gênio indiano que
não se deixaria ofuscar. Alguns séculos mais tarde, século XVI e XVII, cinco
grandes dinastias, os grão-mogóis, reconstituiriam pela terceira vez na
História, a unidade política da Índia; deixarão algumas jóias arquitetônicas
singulares em Agra, Délhi e Lahore, principalmente. Depois, esta hegemonia
mogol desabará por volta de 1730, em conseqüência dos golpes repetidos dos Siks, dos Rajputs e dos
Mahrattes. Do seu encontro com a civilização local nasceu um estilo original e
forte que se designa por indo-muçulmano.
Com a instalação de cortes muçulmanas nas altas bacias do Indo e Ganges,
a natureza dos comandos ia naturalmente modificar-se: palácios, fortalezas,
cidadelas, mesquitas e túmulos monumentais foram edificados sobre os escombros.
De resto, esses túmulos gigantescos e suntuosos estão em contradição radical
com o Corão, que impõe a discrição e o anonimato nos sepultamentos. Mesquitas
encimadas por minaretes fusiformes elevam-se uma a uma, oferecendo linhas e
silhuetas muito mais simples e puras do que aquelas a que os Indianos estavam
acostumados. Os soberanos não hesitaram em fazer desmantelar os edifícios
hindus para aproveitar a pedra; a tolerância de Akbar - o primeiro destes
soberanos - não foi seguida por seus sucessores. A sobriedade das linhas não se
encontra no nível da realização dos pormenores; os materiais mais ricos, as
técnicas mais meticulosas, o virtuosismo mais extraordinário estavam ao serviço
desta execução feita à lupa. Podemos ver em Lahore, por exemplo, sobre ninhos
de abelhas de um pequeno capitel, florzinhas feitas de 90 minúsculas pedras,
semipreciosas, policromas, incrustadas no mármore! Delicada e detalhada, esta
suntuosa ornamentação
associou rapidamente a exuberância indiana aos requintes vindos do Irã.
No conjunto, planos e formas vinham do Islã, a cúpula foi então
introduzida na Índia, adotada e assimilada pelos arquitetos do sul não
islamizado; os monumentos de Ahmedabad, de Gulbarga, de Bishapur e a fabulosa
Golconda mostram cúpulas bulbosas ou encaneladas que se contam entre as mais vastas
e as mais impressionantes do mundo. Cúpulas com pendentes, construídas com
arcos de avançamento, com arcaduras polilobadas, podem ver-se igualmente em
Modhera e em Somanathapura.
Nestes dois fecundos séculos mogóis, o monumento mais ilustre é certamente
o Taj Mahal de Agra, um mausoléu construído por Shah Jahan para recolher os
despojos de sua jovem esposa morta de parto em 1631. Ficamos impressionados pelo
aspecto “imaterial e irreal" (Madeleine
Hallade) do conjunto em mármore branco resplandecente, de linhas tão
harmoniosas; 20.000 operários teriam trabalhado na decoração deste faustoso
túmulo destinado a uma jovem mulher.
Os monumentos mogóis não cessam de nos surpreender por seu gigantismo,
por seu fausto, pela preciosidade e a minúcia da pequena decoração que não
altera em nada a pureza das linhas arquiteturais. Se o mármore branco foi o material mais
usado - notar-se-á igualmente a freqüência de cúpulas bulbosas, as arcaduras
polilobadas, os grandes iwans, os modestos pavilhões de tetos inclinados
- ditos bengalis - os "jalis", esses claustros recortados como uma
renda, espécies de rótulas preciosas. Tudo isso dá a esta arte um aspecto
faustoso, esmagador, que nos convida a evocar a corte das Mil e Uma Noites,
transbordante de jóias e de armas incrustadas de rubis, esmeraldas, safiras,
topázios, turquesas, ametistas, pérolas, etc... Um simples pormenor indicará a
amplitude de autoridade desses soberanos, e a qualidade de sua existência: nos
subterrâneos de seus palácios-fortaleza, dispunham de reservas de gelo trazidas
por caravanas do Himalaia durante a estação fresca e disponíveis durante o
infernal e insuportável verão.
A pintura, mural ou portátil, existia na Índia há lustros, quando tomou,
a partir dos séculos XI e XII, um novo impulso e um entusiasmo renovado com os
soberanos mongóis; eles atraíram à sua corte artistas iranianos e indianos, que
encarregaram de decorar as salas de seus palácios de Fatehpur-Sikri, de Lahore,
de Agra. Desta época, pouco longínqua, só a pintura móvel chegou até nós tendo
desaparecido a mural. Em suma, a grande tradição mural pós-gupta de Ajanta e de
Bagh manteve-se algum tempo no Decão, como o demonstram os estudos destes últimos decênios: fazem, portanto, a
ligação com a pintura medieval de Ellora (século XI) e de Tanjore. Depois, esta
pintura mural devia declinar e não ultrapassar um nível popular, desajeitado,
esvaziado de todo o gosto.
Na pintura de pequeno formato, pelo contrário, assiste-se a um longo e
generoso florescimento. Em Gujarat, por exemplo, esta produção estende-se por
mais de 500 anos, do século XII ao XVII. No início pintava-se em folhas de
palmeira (fins do século XII ao XIV), depois de 1350, sobre papel vindo da
China do qual se conheciam sete espécies; preparava-se a folha polindo-a com um
rolo de ágata. Pintava-se igualmente sobre tecidos de algodão e seda. De grande
finura de execução, estas miniaturas seduzem por seu requinte quase afetado e
efeminado, mas também por sua fluência narrativa.
A pintura oficial mongol tinha características diferentes, ainda que os
artistas persas e indianos tivessem trabalhado lado a lado nos ateliês da
corte; era aí, nos seus anais, que se buscavam os temas, pois esta produção, ao
contrário da hindu, é exclusivamente profana; fazem-se reviver as cerimônias, a
atmosfera frívola e feliz do Zenana (do harém), os concertos noturnos, as cenas
de batalha, de caça a cavalo com galgos ou com falcões. Os artistas não hesitam
em privilegiar algumas flores ou alguns pássaros, isolados, suficientemente
decorativos.
Esta pintura de inspiração nitidamente timúrida no início, indianiza-se,
pouco a pouco, sobretudo a partir do século XVII. Os modelados capitosos
reaparecem, mas também uma certa interioridade; o mistério reaparece nos
rostos. Muito mais tarde, a perspectiva à maneira ocidental fará sua aparição.
Estas miniaturas mongóis trazem assinaturas múltiplas, até de mulheres
artistas: uma para o desenho, outra para a cor, ou ainda para as personagens.
Aurangzeb, o último dinasta no fim do século XVII, mostrou-se pouco favorável à
arte e, inococlasta decidido, perseguiu os pintores e suas famílias. No
entanto, como seus predecessores, fez-se retratar por várias vezes.
Do século XVI a XVIII, a muito oficial escola mongol de pintura não foi a
única a criar; príncipes de uma riqueza inaudita, nos seus domínios da
província, tiveram como ponto de honra, possuir ateliês destinados a cantar sua
glória e seu renome. Marginais, mas naturalmente influenciados pela escola
mongol, estes ateliês regionais estavam igualmente atentos às suas próprias
tradições e faziam passar pelo seu critério lições vindas das oficinas da corte
imperial. Além disso, esses pintores regionais achavam dever exaltar primeiro
seus heróis, os das lendas relativas a Siva e Krishna, cujo interesse estava no
auge e que
forneceram os temas. Uma vez mais, a regra indiana se verificava: a arte deve
ser sempre uma
emanação da religião, mesmo que, por acaso, a representação destes temas gire à volta de
pequenas cenas que, aliás, nos instruem notavelmente sobre a sociedade da
época. "Servindo de pretexto a representações de caráter popular e
bucólico, aparecem alternadamente diversos episódios da vida do deus Krishna:
sua vitória sobre a serpente rodeada de seus nagi (serpentes); seus jogos com
boiadeiros e pastoras e, sobretudo, suas conversas com sua companheira
preferida, Radha. Neste tema favorito, Krishna e Radha abraçam-se ternamente,
rodeados de uma paisagem idílica de suaves colinas e árvores floridas; animais
familiares comprimem-se junto ao deus de pele escura e, eles mesmos, olham-se
amorosamente. Esta atmosfera religiosa e meditativa, marcada de misticismo, de intimidade e de simplicidade, diferencia as obras rajput
das obras mongóis". (M.
Hallade)
A principal das escolas regionais é, com efeito, a de Rajputana, cujo
centro mais importante
se encontrava em Jaipur. No
século XVIII,
esta escola conheceu um prolongamento até aos contrafortes do Himalaia, tendo
Kangra como centro principal. Mas outras escolas se distinguem: em Bengala e no Nepal, onde se guardam as tradições
- a escola bengalo-nepalesa influenciou fortemente a pintura tibetana dos tanka
-; em Gujarat igualmente, este
testemunha uma grande unidade de estilo e sofreu influências irano-chinesas; no
Decão onde encontramos misturados temas hindus e muçulmanos; em Amritsar,
enfim, onde uma escola sikh produziu obras vigorosas.
Assim, este último milênio indiano pode igualmente ser considerado como
muito frutuoso do ponto de vista das realizações artísticas; diversos e
brilhantes êxitos assinalam, com efeito, este desenvolvimento. Mas o contato
brutal não procurado, com estrangeiros de credo-muçulmano ou cristão, traria um
golpe severo e fatal à evolução espantosamente linear, na sua diversidade, a
uma arte surgida na noite dos tempos. Afastada a dinastia mogol, as cortes
hindus entregavam-se às rivalidades das potências coloniais européias. Uma vez
mais, o caos político causava danos por todos os lados e não podia de maneira
alguma favorecer a volta às tradições artísticas autenticamente nacionais.
Depois de 1800, a arte da Índia soçobrava numa decadência da qual ainda hoje se
ressente. Felizmente, as técnicas tradicionais ficaram vivas a nível do povo;
falta-lhes, no entanto, a chama que as faria renascer ao serviço de um estilo e
de uma estética de acordo com os tempos modernos.
Ficha técnica:
O presente texto é uma versão produzida
pelo projeto Orientalismo do livro Quarenta séculos de indianidade de
Guy Annequin: Rio de Janeiro, Ferni, 1978.
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